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*ENAK (Ou De Como Achar Esse Sorriso Especial Em Bali)

Domingo, Fevereiro 2, 2014 2 Comments 26 Likes
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*ENAK
(Ou De Como Achar Esse Sorriso Especial Em Bali)

Como estrangeiro (bule) recém-chegado à Bali, você perceberá imediatamente uma coisa bastante chamativa: sorrisos. Montões de sorrisos. Todo tipo de sorrisos: sorrisos de boas-vindas, sorrisos tradicionais, sorrisos felizes, sorrisos rotineiros, sorrisos que riem de você, e porque não haveria de sorrir sorrisos.


Os balineses gostam e estão acostumados a sorrir. Poderíamos dizer que são as pessoas mas sorridentes do mundo. Sorriem ao se desculpar, e sorriem quando te odeiam. Eles dominaram (acho) a arte de sorrir. Não é o caso com o bule típico. De fato, nada a ver. Pode ser que exista um ou outro bule que sorria bastante. Pode ser que você se depare com um bule que não para de sorrir. Mas não se engane, ele(a) é uma raridade no mundo bule que confirma a regra geral.

No geral, os bules são amáveis em sua tradição bule na qual a amabilidade requer um sorriso. Contudo, e a instâncias desse fato, os sorrisos amáveis são relegados ao nível de um mero acessório superficial, vácuo de um significado mais profundo de interação humana. O verdadeiro sorriso bule, esse que sai de dentro, é um fenômeno individual consequência de um input externo (alguém ou algo nos faz sorrir), ou que brota de dentro de si mesmo (uma lembrança que desencadeia pensamentos felizes, ou um estado mental de felicidade ou de bem-estar geral). Os bules, assim como os balineses, também gostam de sorrir, mas só quando eles tem vontade, e, por isso, os sorrisos forçados tendem a lhe desgostar. Pode que o bule tente sorrir para hipocritamente e, sem sucesso, esconder sua zanga e moléstia. A pessoa que recebe o sorriso perceberá por trás dele ambas as duas: a zanga e a hipocrisia. Inevitavelmente, o bule saberá que seus esforços para não mostrar os seus sentimentos foram em vão e que sua charada foi descoberta. Não é assim com os balineses. Os balineses sentem zanga e moléstia como os bules. Afinal de contas somos todos humanos e, como tais, diferentes mas iguais. Seu sorriso, contudo, ainda que estejam (os balineses, digo), chateados nesse preciso momento, não estão tingidos com hipocrisia, já que um sorriso hipócrita significaria um sorriso falso.

Um tal sorriso que não seja do coração fará com que os músculos do rosto do bule tremam pelo esforço, sem importar o quão curto seja. Um sorriso tal, subjuga o espírito do bule, já que o bule gosta de expressar o que pensa. Se mostrar ao mundo tal e qual ele é é seu privilégio e obrigação. O mundo (assim ele o percebe) precisa saber o que ele pensa. Não ser seu ser verdadeiro é trair a si mesmo. Uma traição à raça humana tal e qual ele percebe. Isso faz com que o bule deteste em extremo os sorrisos hipócritas e deteste a si mesmo quando tem que recorrer a um, o que o levará a detestar ainda mais a pessoa a quem foi dirigido.

O sorriso balinês (em todo momento) está longe de ser falso. É sincero sem nenhum traço de hipocrisia, já que o sorriso balinês é desprovido de sentimento embora tenha um grande significado. Os balineses comunicam-se através de seus sorrisos. O sorriso balinês é regra do jogo de interação que vai além da fachada do sorriso amável do bule. Abre as portas à uma filosofia de vida e de interação humana: não à confrontação. Se do bule que preza sua humanidade espera-se que expresse o que pensa sem importar as consequências, do balinês que preza sua humanidade espera-se que evite se confrontar independentemente da causa. O bule ressente sorrir hipocritamente porque isso lhe arranca seu direito e obrigação de dizer o que pensa e o dizer sem recatos. Isso vai contra a sua natureza. O faz sofrer. O balinês ressente se confrontar porque isso lhe arranca seu direito e obrigação de levar uma vida pacífica e tolerante junto a seu próximo. Isso vai contra sua natureza. O bule mostrará sua zanga e gritará e baterá o pé e até amaldiçoará e assaltará o outro se nisso se revelar tal e qual em verdade ele é. O balinês mentirá e inventará e fingirá se nisso se revelar tal e qual em verdade ele é.

É intão que não há escassez de sorrisos em Bali. E como você vai percebendo rapidamente, se voçe está à procura de sorrisos, aqui em Bali, voçe está de parabéns.

Contudo, de todos esses sorrisos que achará em toda parte pode surgir um problema. Com qual você fica como lembrança? É isso mesmo. Todos esses sorrisos se misturarão em uma imagem borrada que lhe aparecerá na mente quando em anos vindouros você já estiver no seu país bule, desfrutando de um momento com você mesmo, após uma sessão de surf passável de água fria, junto a um café numa tarde tranquila, entre o pasto, começando a rememorar Bali e sua gente.
É assim mesmo, em Bali todos te sorriram; crianças e mães nas garupas das motos, molecada relaxando e folgando em Bali bale, condutores de caminhões fumando cigarros perfumados com cravo, te olhando de cima enquanto eles e você na sua moto esperam pela luz verde, cuidadores de estacionamento após tombar a sua moto sem querer ao tentar criar espaço para a van 4X4, condutor da van 4X4, vendedores ambulantes, empregado de loja após uma hora de barganha e ao final você náo comprou nada.

Sorrisos de montão em Bali e em toda parte como você vai rapidamente percebendo. Contudo, talvez você não tenha esse sorriso balinês especial para levar para casa nesse momento de café após a sessão de surf. Você precisará achar um para entronizar e enesourar, um que seja o sorriso especial; o sorriso que não será enviado às profundezas e vagueza de nossa memória, mas será guardado sempre à mão para recorrer a ele quando o negócio ficar feio.

Você irá querer, de fato, possuir esse sorriso especial.

Assim é como você o achará:

1. Pegue a moto que alugou equipada com os racks de surf e vá surfar. Não esqueça a prancha. Afinal de contas, e, acima de tudo, foi para isso que você veio à Bali. Mas vá explorar primeiro. Se perca na costa sul do Bukit com a esperança de achar um break que não esteja somente abrindo perfeitamente mas que também esteja vazio, ou se for necessário, com uma ou duas pessoas mais. Esqueça do crowd alucinante nas ondas alucinantes da costa oeste. Esqueça a costa leste. Também esta crowd. Novamente, vá explorar. Saia da rua principal pavimentada cheia de caminhões carregados de pedra calcária e motos a toda velocidade e vá pelas ruas menores pavimentadas. Aí já vai sentir a diferença. O tráfego incrível (essa realidade chocante de Bali para a qual você não estava preparado) ficará atrás e esquecido. Se surpreenderá. Sentirá como se tivesse pulado de um cenário a outro com muito pouco em comum um com o outro. Ás vezes a vida é assim, louca. Diminua a velocidade. O ritmo de vida aqui baixa as revoluções imediatamente. Deixe-se levar. Haverá uma ou outra casa espalhadas aqui ou ali. Siga na rua de subidas e descidas que serpenteia à nenhuma parte. A paisagem continuará a mudar. As casas espalhadas já não estão lá; o verde das árvores e da grama (que sim, cobrem a maioria do Bukit) se apropriarão dos arredores. Talvez ainda se tope com uma ou duas motos ou algum carro ocasional. Não faz mal. Procure outra curva onde dobrar. Preferencialmente uma rua mais estreita (ainda pode ser pavimentada). Quanto mais longe parecer que pode te levar, melhor. Agora, diminua a velocidade novamente. Olhe a seu redor e tente esquecer (por mais difícil que pareça) as ondas que está procurando. As copas das árvores de ambos os lados da rua vão logo se enredar formando um túnel verde que o envolverá como se o estivesse engolindo enquanto você vai mais e mais para dentro, constrangendo-se com um sentimento de gozo. O gozo de explorar Bali. Por uns minutos, desfrute do frescor da sombra que lhe cobre do sol (animal) do meio-dia. Após um dirigir pelo túnel procure outra curva onde dobrar. De fato, você subirá os morros. Você está procurando ondas sem crowd, mas lembre-se, também está explorando Bali e na busca por esse sorriso especial para levar com você de volta a casa. A rua de rípio continuará subindo um pouco mais. Verá umas velhas anciãs, magras, de torso nu, vestindo paréis balineses tradicionais ao redor da cintura e caminhando descalças carregando pilhas de galhos na cabeça. Você não achará nelas o seu sorriso especial. De fato, não achará nenhum sorriso nelas. Elas nem sequer vão o olhar. Você não ia acreditar que realmente todo mundo, o tempo todo, sorri em Bali, né? Siga. Os túneis de copas de árvores ficaram para trás e de pronto você se encontrará em uma trilha de moto estreita que apenas poderá distinguir e com o sol batendo novamente na cabeça. Bote primeira e suba pela trilha. Ziguezagueando e se esquivando de entulhos, rochas escarpadas e saliências de pequenos promontórios. Sempre subindo e subindo, você chegará ao topo. Pare. Olhe a seu redor. Verá um par de vacas pastando em pradarias como as que não tinha ainda visto em Bali. Olhe pra cima e verá o céu azul (não olhe fixo ao Sol. Também não é bom em Bali). Por uns minutos você esquecerá de fato as ondas. Não muito longe, uma coisa chamará a sua atenção. Verá uma balinesa magra, vestida e se cobrindo do sol com uma camisa de manga comprida desgastada, calças compridas e um chapéu em forma de cone, segurando um pau com uma rede pequena com forma de xícara na ponta, e balanceando ele de direita à esquerda sobre alguns dos arbustos que delineiam as pradarias, como se intentando pegar alguma coisa. Ela não perceberá sua presença. A princípio, você pensará que talvez esteja caçando borboletas como você já teve a oportunidade de ver as crianças fazendo nos parques em dias calorosos e úmidos de verão, em Tóquio. Essa menina com ar de camponesa não lhe parecerá nem um pouco do tipo de se engessar em tais atividades prazerosas e de parecer pouco prático. Isso aguçará sua curiosidade e você chegará perto para tentar elucidar qual é que é. Além disso, você tentará praticar um pouco o indonésio básico que tentou aprender lendo essa guia de surf nessa viagem comprida e demolidora à Bali.

Aí ela perceberá a sua presença, e sem assombrar-se ao ver um bule perdido e longe de seus lares (como se soubesse que ás vezes a vida é assim, louca,), se voltará e o mirará. Ela lhe parecerá uma menina de uns vinte e cinco anos não particularmente muito bonita. Seus gestos lhe farão saber que ela lhe dá as boas-vindas e está aberta à conversa. Você tentará lhe demonstrar seu interesse pelo que está fazendo. Obviamente, você não entenderá uma palavra. Você apontará a jarra que ela segura na mão esquerda. Ela a passará amavelmente e enquanto você a segura junto ao peito com a sua mão direita, você olhará para dentro para a examinar melhor. Na jarra, haverá uns dez grilos, os do fundo já mortos e se tornando amarelos e os de cima ainda verdes e se movendo um pouco. Você estranhará e a olhará com cara de desentendido. Ela o olhará e lhe responderá com o maior sorriso de olhos brilhantes que você jamais viu e jamais voltará a ver em Bali. O sorriso que você estava procurando.

E então ela agregará: “Enak!”*

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